12. Visões Poéticas e a Parca (itens 580 a 603)

  1. #580 1937

    "O homem-mulher existirá em duas fases: uma por nascimento bissexo, outra por ancestralismo. O mal será o vício no homem; este levará o sexo em busca desregrada e terminará em falso homem-mulher. Médicos operarão e farão bem, mas o homem-mulher não será compreendido até os anos 70."

  2. #581 1938

    "A intuição já não existirá e o homem conhecerá a tribulação. O homem soberbo e hipócrita que destroçou a vereda, matou o irmão, degradou o sexo, aviltou o menor e correu anelante atrás do ouro. O homem que abandonou o amor!"

  3. #582

    "Então: Soberba, a carcomida Parca, calçou sua coroa de vértebras quebradas e seu cetro de tíbias amarelas — Ufana marchou sobre o homem na morte. Espectro fantasmal assemelha sua carcomida figura! O verme a beija!"

  4. #583

    "Homem banal! Ontem corrias atrás do reflexo fátuo — Cobriste a carne com o ouropel da idiotice perene — Agora, dize: que buscas? Apodrece!... Desmorona como matéria apodrecida — Afinal, matéria apodrecida és. Homem sacrílego que te julgaste Deus... Afunda-te!"

  5. #584

    "Homem pecador: o mundo caiu aos meus pés. Tu estás ainda na vida humana... Mas estás morto! Eu — em troca — Sou morte e sou... Vida!"

  6. #585

    "...E hoje — Eu, como morte na morte — Grito: O homem não regressará — Não o fará — e não o fará porque ao meu lado aprendeu com afã a matar — Jactancioso arrancou das minhas mãos a arma — Minha arma!... — e marchou para o seu crime. Petulante e envaidecido julgou ser a morte — Hoje ostenta o meu cetro! Não regressará!"

  7. #586

    "Homem medíocre. Deixa-me caminhar com minha bagagem em triunfo — Escapa tu, com a que mal levas. Ambas pesam! Os séculos julgarão! — Sou livre! —"

  8. #587

    "Arrogante senhora! — A do fino fio infinito — A do fio da vida entretecido com o áspero cordel do linho escuro. Senhora és do caminhar sem consciência e do fado distante. Senhora és!... Mas abre a mente e escuta: Já os mares em ciclones revoltos estrangularam cordilheiras e arrasaram países — por isso — a Árvore de Câramos gritou: 'Detém, morte, a morte! Caiu o desamor.' É já o instante dos instantes! Medita: Amor é amor. Compreende!"

  9. #588

    "Procura-te!... Porque na morte habitas. Observa o cordão que fias e babas: Ele perde fulgor... empalidece... Não sentes o frio que chega? — Não alcanças seu gelo desnudo que abraça fraternalmente os icebergs que chegam? Não tens sua aura? — Parca: o segundo do último minuto já chegou. Entende-o! —"

  10. #589

    "Espanto!... Sendo eu a morte, regelada tremo: Morri! Morri; porque agora o frio do meu frio é grato calor. Salva-me, ser humano! Vou contemplando tua presença — És a vida! — Vou contemplando minha presença — Sou a Morte!... Salva-me —"

  11. #590

    "Parca vencida — Nada o ser humano poderá fazer em destino algum — Segue teu caminho e chora — É já a hora — Caminha!"

  12. #591

    "Homem — tens razão. Vencida sou. Maldição receba minhas curvadas costas. Cheguem a mim os errantes olhos despreendidos daqueles que partiram. Cheguem e atônitos observem meu quebrado andar. Derrotada caí — Sarcasmo do Mundo! — A morte: morta! Resignada penetro já no portal do instante instante: Sou nada no nada! — Nada! —"

  13. #592

    "Irmã Terra, minha feia irmã — Desde a névoa teus cabelos contemplo. És tu a que vejo? — És tu? — Sim, eu sou! com humildade respondes e acrescentas: Eu sou esta coisa ingrata que aqui descobres... e que tu és. Disse-o a nuvem. Dizem-no os pássaros — Dizem-no as ondas — repete-o o ar. Sim, tu és, irmã boa — esta terra seca — a que ontem tu, orgulhosa, foras — Aquela altiva Parca briguenta, ágil e agressiva, que corria como cervo presumido e elogiado — pela senda abrupta, estreita e ardente da praia incendiada. Sim, tu és, irmã grisalha, esta coisa feia e rude que aqui observas... Tu és!"

  14. #593

    "Percorro a interminável via das águas em gelo — Caminho e nada compreendo. Quero alvores de solos — quero brisas de mares — quero revoltas ondas verdes que falem das terras cálidas e das costas suaves — Que falem dos brancos mundos e das negras aves — que bravias respinguem meu rosto ido e minhas mãos inertes; as quais, desfeitas e adormecidas, nada mais podem, porque tudo deram. Tu as tens!... Tu as tens... Tu morreste nas ondas — Gritou o sol em alarde — É verdade!... É verdade!... Morri em sua tarde — E isso foi tudo! Saí da névoa ferida e calei — Escapei da minha senda e marchei — E isso foi tudo!"

  15. #594

    "Extraviada sob o teto de cristal das estrelas — Busquei o fulgor do bom Deus que me acolhesse. O olho manso do Tritão mendigo cobriu-me com esquálido olhar... e humilhou minha morte. Noite longa se fez! Noite de espera — de feitiçaria — de metal bruto. Joias opacas oprimiram meus braços falecidos... — E rolou o espaço! —"

  16. #595

    "Tu foste pássaro! diz-me a Nuvem Nuvem. Por que não alças voo em asas? — Por que não elevas a mente e ergues suas galas rumo a esses mundos que conhecem a vida plena e o falar singelo? — Tu foste pássaro um dia... Voa! —"

  17. #596

    "Irmã Terra: Ergue tua fronte de bronze — Ergue teu corpo de heras e chagas. Vem; porque já o peixe da ostra vermelha saltou sobre sua cauda de quartzo e feriu a lua nas lapas, no momento do tempo — Porque já o peixe da ostra ostra chorou o pranto dos prantos dizendo: 'Eu quero dormir dormindo a hora dos três tempos.' Ergue tua cabeça, irmã! Ergue teu corpo de lianas e canta. Canta!"

  18. #597

    "É a hora em que as águas chamam os peixes mortos que habitaram outras praias, outros lodos, outras lajes — É a hora em que pranteiam as estrelas madrugadoras: elas caíram. É a hora em que choram as carapaças formosas: elas não creram no amor da irmã marinheira. Chove... Chove e as águas nas águas, sem as ondas nas ondas, silenciam... Adormecem. E a praia em silêncio jaz solitária... Ondas... Ondas... Águas... Águas... Ondas... Ondas."

  19. #598

    "Chegou a vez de empreender a viagem — Chegou o mandamento de trocar a veste pelo burel branco — Já não é o plenilúnio dos anos anos — Não está ainda gravado o nome sem nome sobre o leito plano do deserto magro. Do lago insular! — Embora eu seja a morte, nada sei do regresso — Nada sei de minha fé no esforço de alcançar o castigo sem véus — Desconheço minha sombra fluida — Não existo na ogiva do astral em chamas — Não ouço, não pressinto — Não sinto a congelada região dos gelos perenes e líquens róseos — Já não sou, sendo vento — Já não sou, sendo nada... Nada!... Nada!"

  20. #599

    "Fina vestimenta de águas levo sobre meu corpo alado — Na cabeça, cascatas de chuvas presas e entrelaçadas — Sobre minhas têmporas o século soluçando detém-se, e nele o astro abate sua faina fatigada — Devo pousar sobre o manto desgastado; compreendo o clamor do som rouco — é o bramido do sofrer em calma — Do espaço hirto e do halo ferido — Amanhã partirei rumo ao astro frio — Cruzarei tremendo os planetas régios — Rozá-los-ei com os cabelos lisos e receosos — Deter-me-ei na cansada Lua — Abrirei de minha mente as duas portas para que voem as brumas leopardo. E estarei morta — Prosseguirei a rota da calma — Buscarei obediência aos deveres — Tomarei o caminho dos seres e serei Alma!"

  21. #600

    "No castigo dos castigos fomos! exclamaram as almas em Fé, naquele dia. Fomos no martírio — acrescentaram os homens novos. Sereis no galardão! promete o Anjo da água límpida e do peixe. Sereis na Paz — acrescenta a Nuvem Nuvem... Porque a morte viaja. Sua hora chegou!"

  22. #601

    "Parca: Atenta e entende tu que viajas — O Novo Século aproxima-se em triunfos! exclamou o Anjo — Proclama-o o halo incendiado do planeta cobre — Ele negou já sua luz ao homem sem órbita e dotou justiceiro o justo com o Divino clarão do pássaro branco. Atenta e entende, tu que passas! Clarão é Amor!"

  23. #602

    "Anjo do Universo! — enviado supremo de Deus — dize-me: acaso, porventura essas descarnadas mãos abertas e altivas que atacaram meu passo quererão calçar minha coroa e empunhar meu cetro? — 'Jamais! Tu és a morte — e o serás após o dia do dia — pelos séculos — ninguém poderá arrebatar de ti o que dispôs o Senhor. Hoje levas castigo, mas sem ele ficarás — e regressarás na hora da hora à tua missão, e será Santa. Calça pois já tua sandália de arrependido penitente — e em oração caminha! Lembra-te: Deus resiste ao soberbo, mas entrega sua graça àquele que se humilha! Tu no tempo serás!...' E o Anjo do Universo afastou-se em bondade."

  24. #603

    "Homem novo — Tu que passas — não me chames — Não me chames até o desígnio... Chove... Chove! Deposito minhas crispadas mãos nas mãos divinas do Senhor... E caminho... Chove... Chove... Chove... Senhor, Senhor — Quisera brincar com o lodo — e sonhar com a vida. Quisera, Senhor — deitar-me junto às flores sem pólen e cantar adormecida! Deixa que me recolha em meu recanto de sombras. Deixa que abrace as folhas — que acaricie os frutos — que beije os ramos e me aconchegue com eles... Tu que chegas, homem novo — contempla-me: Sou a morte!... Mas prossegue teu caminho, homem forte — É já o fim do instante. Vou dormir!"